In memorian
A vida é somente uma linha tênue que pode romper se inesperadamente.
Nós somos as escolhas que fazemos. Nossas escolhas fazem nossos princípios e guiam nossos passos, ganhamos com elas e pagamos por elas. Por causa delas nos tornamos juízes e somos julgados pelos outros.
Hoje 24 de abril de 10, é a data em que responderas a ti mesmo pela escolha que fizeste.
Hoje, tomas plena consciência de quem fostes e quem poderia ter sido se a escolha feita em vida fosse diferente daquela feita antes que partisse.
Todavia, tanto eu quanto outros que aqui ficaram não podemos, de modo algum, condenar-te os atos. Porque somos como tu foste humano e por isso temos em cada um de nós vícios e virtudes que nos fazem completam, ninguém é um lado só. Ninguém é em sua totalidade bom ou mau.
E aquilo que nos faz próximos é justamente aquilo que de bom ou ruim compartilhamos. E no nosso caso, uma data.
10 de Janeiro. É somente uma data, muitas pessoas fazem aniversário no mesmo dia tal como nós dois. Seria uma tola coincidência, se não fosse pelo fato de que antes mesmo que eu nascesse tu tivesse desejado que eu compartilhasse essa data com você. Tu querias assim, me escolheste para compartilhar o teu aniversário como um novo amigo com quem compartilhamos nosso brinquedo antigo e preferido.
E à medida que eu adquiri vivência passamos a compartilhar outras coisas das quais me lembro e me lembrarei com muito carinho de hoje em diante. Estórias que me tu apresentaste outras que eu te apresentei. Eu poderia passar horas falando de Agatha Christie, Cecília Meireles e Joanne Rowling. Recordando Erico Veríssimo, Malba Tahan e Stephen King e tantos outros.
E engraçado ate que a maioria deles falasse tanto de morte como e por que havíamos de gostar tanto deles.
King, o rei do terror descrevia cenas intensas e as vezes eu me recordo de te ouvir narrar a cena do garotinho com o caminhão impressionado com a mesma intensidade que o próprio autor.
Malba falava da mulher que para não morrer passava noites contando estórias mágicas. Conseguiu. Por conta da magia da estória ela sobreviveu.
Falar em magia me dói como nunca doera antes. Porque fazia parte dos teus planos era mais uma vez o ultimo capitulo que nos dividiríamos de algo que eu te entreguei. Eu escolhi que conhecesse, emprestei um pedaço de um mundo irreal e que de maneira tão sabia nos descrevia, a nos humanos preconceituosos e orgulhosos da própria raça. Através da magia descobrimos que as pessoas quando amam jogam se para a morte para salvaguardar aqueles a quem amam muito. E aprendemos que o verdadeiro senhor não teme a morte, ele simplesmente a aceita por saber que há coisas piores nesse mundo.
A dama do crime que deslindava assassinatos justamente por conhecer a personalidade dos homens e a maldade que existe nos corações de todos. Ela sabia que possuímos fraquezas e que sucumbimos.
Eu poderia descrever-te através das estórias que juntos conhecemos. Um homem, talvez um menino como o de Stephen que se joga para a rua atrás de uma diversão sem saber que na próxima curva vem um caminhão que poderá atingi-lo, como Sherazade que divertia com estórias diversas aquele que amava para que não fosses condenados a morte. Seria como o professor Dumbledore que cometeu erros diversos por amar o inadequado e que pagou o terrível preço da morte por sucumbir uma ultima vez ao apelo daquilo que tanto buscava, mas que jamais o satisfaria plenamente. Como o investigador belga que dependia de um grande amigo para amparar e acompanhar.
Hoje, 24 de abril de 2010, saíste daqui, fazendo questão de seguir um dos companheiros. Foste para onde os olhos falhos dos humanos não podem seguir te, para um lugar onde somente o coração inocente pudesse apreciar com a devida reverencia. Deixaste o mundo dos trouxas.
Agradeço-te imensamente pelo que me ensinaste, peço te perdão se alguma vez dentre aquelas em que estivemos juntos eu o magoei , gostaria que soubesses que eu sentirei sua falta AMIGO, e que sempre me lembrarei de ti somente pelas escolhas boas que fizeste.
Muito obrigada, Abdias, meu padrinho, meu amigo. Amo-te e hoje sou feliz por ter feito parte da sua vida.
Por Giselle Oliveira em homenagem a Abdias Ferreira do Nascimento.
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